terça-feira, 18 de novembro de 2008

Nem matuto , nem erudito!


O Vaqueiro
Eu venho dêrne menino,Dêrne munto pequenino, Cumprindo o belo destino Que me deu Nosso Senhô. Eu nasci pra sê vaquêro, Sou o mais feliz brasilêro, Eu não invejo dinhêro, Nem diproma de dotô.
Sei que o dotô tem riquêza, É tratado com fineza, Faz figura de grandeza, Tem carta e tem anelão, Tem casa branca jeitosa E ôtas coisa preciosa; Mas não goza o quanto goza Um vaquêro do sertão.
Da minha vida eu me orgúio, Levo a Jurema no embrúio Gosto de ver o barúio De barbatão a corrê, Pedra nos casco rolando, Gaios de pau estralando, E o vaquêro atrás gritando, Sem o perigo temê.
Criei-me neste serviço, Gosto deste reboliço, Boi pra mim não tem feitiço, Mandinga nem catimbó. Meu cavalo Capuêro, Corredô, forte e ligêro, Nunca respeita barsêro De unha de gato ou cipó.
Tenho na vida um tesôro Que vale mais de que ôro: O meu liforme de côro, Pernêra, chapéu, gibão. Sou vaquêro destemido, Dos fazendêro querido, O meu grito é conhecido Nos campo do meu sertão.
O pulo do meu cavalo Nunca me causou abalo; Eu nunca sofri um galo, pois eu sei me desviá. Travesso a grossa chapada, Desço a medonha quebrada, Na mais doida disparada, Na pega do marruá.
Se o bicho brabo se acoa, Não corro nem fico à tôa: Comigo ninguém caçoa, Não corro sem vê de quê. É mêrmo por desaforo Que eu dou de chapéu de côro Na testa de quarqué tôro Que não qué me obedecê.
Não dou carrêra perdida, Conheço bem esta lida, Eu vivo gozando a vida Cheio de satisfação. Já tou tão acostumado Que trabaio e não me enfado, Faço com gosto os mandado Das fia do meu patrão.
Vivo do currá pro mato, Sou correto e munto izato, Por farta de zelo e trato Nunca um bezerro morreu. Se arguém me vê trabaiando, A bezerrama curando, Dá pra ficá maginando Que o dono do gado é eu.
Eu não invejo riqueza Nem posição, nem grandeza, Nem a vida de fineza Do povo da capitá. Pra minha vida sê bela Só basta não fartá nela Bom cavalo, boa sela E gado pr'eu campeá.
Somente uma coisa iziste, Que ainda que teja triste Meu coração não resiste E pula de animação. É uma viola magoada, Bem chorosa e apaxonada, Acompanhando a toada Dum cantadô do sertão.
Tenho sagrado direito De ficá bem satisfeito Vendo a viola no peito De quem toca e canta bem. Dessas coisa sou herdêro, Que o meu pai era vaquêro, Foi um fino violêro E era cantadô tombém.
Eu não sei tocá viola, Mas seu toque me consola, Verso de minha cachola Nem que eu peleje não sai, Nunca cantei um repente Mas vivo munto contente, Pois herdei perfeitamente Um dos dote de meu pai.
O dote de sê vaquêro, Resorvido marruêro, Querido dos fazendêro Do sertão do Ceará. Não perciso maió gozo, Sou sertanejo ditoso, O meu aboio sodoso Faz quem tem amô chorá.
Patativa do Assaré

O acesso ao mundo da leitura e escrita pode abrir novos mundos ou fechá-los. Esse Ler pode provocar diversas reações tanto para o emissor quanto para o receptor. Enquanto o vídeo passava com a exibição da palestra do escritor Ariano Suassuna, eu imaginava quantos e quantos colegas concordavam, quantos discordavam como seria interessante o confronto com defensores da língua " puristas" para uma maior compreensão e análise dos pontos relevantes. A defesa do escritor ou talvez o alerta, o pedido de socorro feita pelo escritor à nossa busca de identidade eo melhor para que não percamos. Foi contagiante! Fiquei apaixonada pela maneira simples, pura, regionalista e idealista apresentada na fala do escritor. Para que saibamos explorar os diversos meios de leitura e escrita é necessário refletir, analisar e não deformar o texto-poético. É de fato um chamado à busca de nossa história, um despertar para a constante reflexão da história de vida dos nossos alunos, dos seus falares não esquecendo nunca que antes da escola , eles também já têm uma vida histórica e social. Como sugestão, os Tutores propuseram a análise do seguinte texto: O Vaqueiro de Patativa so Assaré.

António Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré é cearense e tem vários livros publicados. O mesmo era unanimidade nos folhetins de Cordel. Todo interesse foi criado desde a infância quando ouvia as histórias contadas que o encantava. Apesar do pouco estudo os cordéis do poeta, apresentam noções básicas de métrica e rima, não necessariamente cobrada para o iniciante escritor, mas no poema analisado fica evidente. O texto contém histórias com ritmo e são bem amarrados, demonstrando uma inteligência infinita. Assim identifiquei que Patativa do Assaré, tem uma linguagem madura e que os elementos linguísticos são decisivos na composição, além de outros elementos não -verbais como; idaa entonação, e sonorde. Através da leitura do Cordel percebi um escritor com uma grande experiência de vida, talvez uma escola que não das letras , mas de vida. Isso percebi através das narrações precisas de sonhos e desejos de um menino adulto. No texto aparece nitidamente a fala típica do brasileiro do meio rural, como pude verificar na pronúncia de várias palavras que explicitam termos ligados à roça: "Eu nasci pra sê vaquerô... / Verificamos também que a região retratada é o Nordeste, pois mostra o confronto entre a qualidade estética e um conteúdo que valoriza um tipo bem brasileiro do sertão."... Tenho na vida um tesôro/ Que vale mais de que ôro:/ O meu liforme de côro/ Pernêra, chapéu, gibão..." .Contudo, entende-se os vários fatores que determinam a forma de expressão do texto e posteriormente do poeta. Mais uma vez volto a questionar:- Seria incoerente trazer um texto de Patativa do Assaré para a sala de aula julgando tratar-se de um texto inferior, pois o mesmo fere à norma culta- padrão?- Onde esse texto se encaixaria? . Contudo é necessário que os alunos conheçam a norma culta, saibam utilizá-la, mas valorizem a linguagem informal como refêrencia de vida dos mesmos. O texto apresentado é um texto riquíssimo, não só quando trabalhamos a entonação e pontuação, mas também quando trazemos para a sala o estudo e a reflexão das variantes da Língua acerca do preconceito linguístico, regional e cultural, além de analisar a criatividade do poeta, a aprendizagem trazida de fora da escola, bem como; trabalhar os diversos contextos sociais e geográficos em que os mesmos estão inseridos.


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